Parceria internacional anunciada pela prefeitura reacende debate sobre renovação da frota, financiamento público, ordenamento ambiental e viabilidade econômica.
Negociações com chineses para instalação de estaleiro anima armadores de Bragança, mas preocupa trabalhadores e Sindicato de Pesca, em Belém/Fotos: Divulgação.
Prefeitura de Bragança anunciou negociações com empresas chinesas para a instalação de um estaleiro no município, voltado à renovação da frota pesqueira local. O projeto prevê a substituição gradual das embarcações de madeira por barcos de fibra, com tecnologia mais moderna e adequação às exigências ambientais e sanitárias do mercado internacional.
À frente da iniciativa, o prefeito Mário Júnior apresenta o empreendimento como resposta a um problema antigo da pesca paraense: a dificuldade de legalização das embarcações, fortemente impactada pela origem da madeira utilizada na construção naval artesanal. A proposta, segundo o discurso oficial, permitiria reduzir a pressão sobre recursos florestais, modernizar a frota e abrir caminho para novos mercados externos.
As tratativas com a empresa chinesa Sinolac, no entanto, não são recentes. Representantes do setor pesqueiro de Bragança relatam que as conversas se arrastam há pelo menos três anos, com intercâmbio de informações e visitas técnicas entre Brasil e China. O diagnóstico é consensual: a frota que opera hoje no Pará é, em grande parte, a mesma dos anos 1970, tecnologicamente defasada e onerosa em manutenção.
Apesar disso, o ambiente institucional segue hostil. Fontes do setor afirmam que o BNDES não mantém, até o momento, linhas efetivas de financiamento para a pesca no Pará. Oficialmente, o banco informa apenas que “está estudando o mercado”. Na prática, armadores veem pouca disposição federal para enfrentar o tema fora do pagamento do seguro-defeso, política que, embora relevante socialmente, não resolve o impasse estrutural da atividade.
Do lado chinês, o interesse em avançar permanece. Uma rota marítima inicialmente planejada para o Porto de Vila do Conde acabou sendo deslocada para o Porto de Santana, no Amapá, movimento interpretado por empresários como sinal de que o Pará perdeu protagonismo logístico por falta de decisões políticas.
Entre os armadores de Bragança, o projeto desperta tanto esperança quanto apreensão. A modernização da frota pode significar ganho de eficiência, melhoria sanitária e adequação ambiental. Por outro lado, há o temor de que os construtores navais locais sejam engolidos pelo novo modelo, deixando de ser patrões para se tornarem empregados de um estaleiro industrial.
Um dos armadores ouvidos pela coluna confirma a existência do projeto e diz ser um dos articuladores da iniciativa desde a viagem à China, há dois anos. Segundo ele, a proposta vai além da simples troca de barcos: envolve qualificação de mão de obra local, geração de empregos e um modelo de transição no qual embarcações antigas seriam usadas como entrada para financiamento de barcos novos, com menor custo de manutenção.
“O problema é menos técnico e mais político”, resume. “O projeto está andando, mas engatinhando, porque qualquer movimento vira disputa eleitoral.”
É justamente aí que surgem as críticas mais duras. O presidente do Sindicato da Pesca do Pará (Sinpesca), Apoliano Nascimento, reconhece que todo investimento gerador de empregos merece aplauso, mas alerta para o risco de se vender uma solução simplista. Para ele, a precariedade das embarcações não é a raiz da crise do setor.
“O que sempre faltou foi ordenamento e regularidade ambiental. Sem isso, não há matéria-prima legal nem segurança jurídica para investir”, afirma. Apoliano questiona ainda a viabilidade econômica do estaleiro: se as permissões de pesca não forem ampliadas, quem encomendará barcos novos? E o que será feito das embarcações antigas? “A equação não fecha. Soa mais como discurso político em ano eleitoral”, conclui.
Entre promessas de modernização, entraves ambientais, ausência de financiamento e desconfiança do próprio setor, o estaleiro chinês de Bragança segue, por ora, como projeto em disputa - mais sólido no discurso do que nas amarras institucionais que definem o futuro da pesca no Pará.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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