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REGRAS DE CONDUTA

Quando crítica vira problema, resposta vem em manual na Prefeitura de Belém

Postura de secretários em meio à crise expõe padrão que a gestão Igor Normando decidiu formalizar em documento interno

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 07/05/26 08:15
Quando crítica vira problema, resposta vem em manual na Prefeitura de Belém
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a última terça-feira, 5, Belém voltou a afundar - e não é figura de linguagem. Mais uma chuva forte, combinada à maré alta, espalhou alagamentos por toda a cidade, sobretudo nas áreas cortadas por canais. Ruas viraram rios, casas foram invadidas pela água e a rotina de milhares de moradores foi, outra vez, interrompida.

 

Enquanto o caos se avoluma, gestão parece mais preocupada em reagir às críticas do que em responder à população/Fotos: Divulgação.

O roteiro é conhecido e repetido à exaustão, mas ainda segue sem resposta à altura do poder público.

Mas, desta vez, um elemento chamou mais atenção do que o próprio cenário já esperado: a reação de quem deveria informar. No auge do caos, quando a cidade pedia agilidade, transparência e orientação clara, um secretário decidiu transformar as redes sociais em campo de confronto. Em vez de atender à imprensa - que, em momentos assim, atua como extensão do serviço público -, partiu para o ataque contra uma jornalista que expôs falhas da comunicação oficial. O episódio não é isolado. É revelador.

Fora do foco, profissionais de imprensa relatam um padrão que vem se consolidando: dificuldade de acesso, respostas que não chegam, canais oficiais esvaziados e substituição da transparência por contatos paralelos. Ligações informais, mensagens com “visualização única”, pedidos para “não publicar ainda” - tem de tudo. No português claro, a informação deixou de ser pública para virar filtrada.

E isso, em cenário de crise, cobra um preço alto. De um lado, uma cidade ilhada. De outro, uma gestão que parece mais preocupada em reagir à crítica do que em responder à população.

O método do erro

O que poderia ser interpretado como falha pontual ganha outra dimensão quando observado à luz de uma decisão recente da prefeitura: a criação de um manual interno de comunicação.

A gestão encomendou, recebeu e distribuiu o documento a cinco dezenas de secretários e auxiliares com a justificativa de “organizar” - ou, na prática, conter - o fluxo de informações. O manual surge como resposta institucional a um problema que, ao que tudo indica, não é mais episódico, mas formaliza procedimentos, padroniza condutas e estabelece um modelo de relação com a imprensa que privilegia controle, alinhamento e centralização. Ou seja: transforma comportamento em método. E é justamente esse método que ajuda a explicar episódios como o desta semana.

É assim que se faz

O conteúdo do protocolo é direto: nada de improviso, nada de resposta imediata, nada de fala isolada. Toda comunicação deve passar por validação prévia, alinhamento interno e, quando necessário, pelo crivo da área central de governo. Na teoria, trata-se de organização; na prática, cria-se um funil – e é nesse funil que a informação pode travar.

Em situações críticas, como alagamentos, interrupções de serviços ou riscos à população, o tempo da informação é determinante. Quando a resposta depende de etapas internas, aprovações e filtros, ela deixa de cumprir sua função essencial, que é a de orientar o cidadão.

O efeito é visível: atraso, ruído e, não raro, silêncio.

Ao final e ao cabo...

O que antes era percebido como resistência difusa agora tem forma e regra, virou institucional. O manual não cria o problema - ele o revela e, mais do que isso, o legitima. Ajuda a entender por que, em meio ao caos, a resposta oficial não chega - ou chega tarde, incompleta ou tensionada. E explica por que a crítica passou a ser tratada como ameaça e não como instrumento de ajuste.

Em Belém, o problema não é só a água que sobe; é a informação que, cada vez mais, precisa passar por um manual.


Papo Reto

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.