Presidente da congregação religiosa anuncia culto de desagravo enquanto tenta conter a maior crise recente da igreja.
sabedoria japonesa ensina que dar uma segunda chance é oferecer “a segunda bala para quem já errou o primeiro tiro”. Não é exatamente o caso, mas lembra. No currículo recente do pastor Samuel Câmara, presidente da Assembleia de Deus em Belém, dois episódios compõem um roteiro de déjà-vu: primeiro, o aluguel do templo para um hospital de campanha que nunca funcionou; agora, o contrato de R$ 2 milhões para o mesmo espaço receber eventos da COP30.

Em 2020, no auge da Covid-19, o Centro de Convenções foi entregue ao governo do Pará como palco de um hospital emergencial. A cidade ardia na crise sanitária. Houve ruídos - bons crentes e descrentes torceram o nariz -, mas a “boa causa” serviu de argumento moral. O hospital nunca abriu as portas, mas os repasses mensais pingaram gordos na conta da igreja enquanto durou o colapso da saúde pública.
Quatro anos depois, nova cessão, novo ruído, só que amplificado. A transformação do Centro de Convenções numa arena de manifestações “mundanas”, durante a COP30, caiu mal entre fiéis, lideranças religiosas e curiosos de esquina. O desconforto varreu os 550 templos coligados, atravessou igrejas católicas, terreiros e redes sociais - onde as trombetas de Jericó fariam menos barulho do que os vídeos indignados que circularam.
Ninguém, contudo, chamou o pastor de “vendilhão do templo”. Não oficialmente. A justificativa foi outra, mais terrena: negócio é negócio, para ambos os lados. Um pastor de linha auxiliar ainda tentou dourar a pílula: tratou a cessão como “cortesia”, lembrando que o governo já havia cedido espaços à denominação. Argumento válido - até comparado com a dinheirama desta vez envolvida.
A irritação não é apenas doutrinária. Pastores do segundo e terceiro escalão, muitos deles preocupados com a imagem pública da igreja, reclamam nos bastidores que não foram informados, nem consultados, sobre o acordo milionário. A avaliação de parte da liderança é que a autonomia do presidente extrapolou o razoável e expôs a igreja a um desgaste evitável e previsível.
Há ainda o temor crescente de que a crise reacenda velhas fissuras internas: a disputa de influência entre setores mais conservadores, o desconforto com decisões centralizadas e a lembrança incômoda dos episódios envolvendo familiares de Câmara, incluindo o fantasma do caso INSS, que permanece como sombra recorrente.
Sem perguntas formais, sem respostas formais. Até que a montanha foi a Maomé - e o pastor falou no culto da manhã de domingo, no Templo Central. Dirigiu-se aos fiéis dizendo estar sendo “julgado precipitadamente”, afirmou viver vida simples e frugal e atribuiu a enxurrada de críticas a “ações demoníacas” e a adversários tradicionais.
Disse também que não deve satisfações às redes sociais - o que é uma forma indireta de reconhecer que elas o incomodam - e que não apresentaria explicações. Mas apresentou um gesto político: convocou para esta terça-feira um grande culto de desagravo, conclamando os fiéis a testemunharem sua inocência e unidade.
Entre a convicção e o cálculo, o presidente da Assembleia de Deus falou, falou - e preservou o essencial: o silêncio sobre o contrato, os valores, os critérios, os motivos. A crise continua sendo administrada na base da fé.
E, como se sabe, fé não costuma exigir recibo.

•O governo do Pará empurrou para 19 de dezembro o prazo de empenhos e pagamentos de 2025. Portaria conjunta de Sefa, Seplad e CGE diz que é “excepcional”, mas quem conhece a casa sabe: no fim do ano sempre cabe mais um jeitinho contábil.
•O ministro do STF, André Mendonça (foto), que é pastor da Assembleia de Deus, esteve em Melgaço, Ilha do Marajó, na última sexta-feira.
•Estava acompanhado de executivos paulistas da Engea, consórcio ao qual pertence da Águas do Pará-Cosanpa na distribuição de água e saneamento no Pará.
•O ministro participou do anúncio de investimentos direcionados a solucionar os problemas de distribuição de água e esgoto no município, detentor do menor IDH do País.
•O Iphan reconheceu o ofício das tacacazeira da Região Norte como Patrimônio Cultural do Brasil.
•O pedido de reconhecimento tem origem em 2010, quando o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular propôs a inclusão do ofício no Livro dos Saberes e ganhou força em 2024, com a elaboração de um dossiê desenvolvido pela Universidade Federal do Oeste do Pará.
•Ninguém tem mais dúvida que uma significativa parte das águas minerais comercializadas em nos conjuntos habitacionais e bairros periféricos da Região Metropolitana de Belém é falsificada.
•O governo britânico confirmou, eu seu novo orçamento, que a partir de abril de 2028 motoristas de carros elétricos e híbridos passarão a pagar uma taxa por distância percorrida, encerrando anos de benefícios fiscais destinados a estimular a tal transição verde.
•Por maioria de votos em ambas as Casas, o Congresso Nacional derrubou o veto do presidente Lula a 52 pontos da Lei Geral do Licenciamento Ambiental, a 15.190, de 2025.
•Retornaram ao texto legal, portanto, trechos como a dispensa e simplificação do licenciamento ambiental e de suas exigências e responsabilidades, assim como a função dos órgãos federais, estados e municípios nesses processos.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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