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MERCADO

Tarifaço de Trump ameaça metade das exportações da indústria do Pará

Estudo da Fiepa calcula que sobretaxa de 25% pode atingir 54% dos embarques; setor aposta em diversificação para reduzir impacto.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 04/06/26 17:00
Tarifaço de Trump ameaça metade das exportações da indústria do Pará
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ameaça de um novo tarifaço comercial dos Estados Unidos acendeu sinal de alerta na indústria paraense. Caso a proposta do governo norte-americano avance nos moldes apresentados atualmente, cerca de 54% do valor das exportações industriais do Pará destinadas aos EUA poderá ser atingido por uma tarifa adicional de 25%.

 

Alex Carvalho defenda diversificação de produtos como forma de contornar ruídos de mercado/Fotos: Divulgação.

A estimativa foi elaborada pela Federação das Indústrias do Estado do Pará, por meio do Observatório da Indústria do Pará e do Centro Internacional de Negócios, com base nos embarques realizados no primeiro quadrimestre de 2026 e já descontando produtos que podem ficar de fora da medida graças às exceções previstas no pacote tarifário em discussão em Washington.

Embora o plano ainda esteja em fase de consulta pública e audiências antes de eventual implementação definitiva, o impacto potencial já preocupa principalmente a indústria de transformação, responsável por praticamente todo o volume exportado dentro do universo analisado - cerca de 99%.

Ferro e alumínio

Entre os segmentos mais expostos aparecem justamente dois pilares históricos da pauta mineral paraense: o ferro fundido bruto não ligado e o alumínio não ligado em formas brutas. Sozinhos, esses produtos representam, respectivamente, 30,49% e 18,75% do total avaliado pela federação. Na prática, a sobretaxa encareceria os produtos brasileiros no mercado norte-americano, reduzindo competitividade diante de concorrentes internacionais e pressionando margens de exportadores que dependem do mercado dos EUA.

Apesar do cenário de incerteza, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) avalia que ainda é cedo para medir o alcance real dos impactos, sobretudo porque parte relevante dos produtos brasileiros pode acabar enquadrada nas exceções previstas pelo próprio governo norte-americano.

Alternativa possível

O presidente da Fiepa, Alex Carvalho, afirma que a entidade já trabalha há alguns anos em uma estratégia de diversificação comercial justamente para reduzir a dependência de mercados específicos e blindar a indústria local contra turbulências geopolíticas.

Segundo ele, a movimentação internacional da indústria paraense não surgiu como resposta imediata à nova ameaça tarifária.  “O objetivo é reduzir a dependência de um único mercado e aumentar a resiliência das exportações paraenses diante de eventuais medidas protecionistas ou mudanças no cenário geopolítico internacional”, afirma.

Carvalho sustenta que o processo de internacionalização da indústria do Estado já vinha sendo estruturado antes mesmo da atual tensão comercial. “O que estamos vendo hoje é menos uma reação emergencial e mais a consolidação de um processo de internacionalização que a indústria paraense já vinha construindo e fortalecendo nos últimos anos”, destaca.

Novos mercados

Nos últimos meses, representantes da indústria paraense participaram de agendas empresariais na Alemanha, Estados Unidos, Canadá, China e França, buscando abertura de mercados, atração de investimentos e fortalecimento de cadeias estratégicas ligadas à mineração, bioeconomia, alimentos e proteína animal.

Outro fator que pode aliviar parcialmente os efeitos da medida é a própria dependência da economia norte-americana de determinadas matérias-primas brasileiras.

O relatório preliminar dos EUA prevê exceções para 1.690 linhas tarifárias, incluindo produtos considerados críticos para a indústria americana ou cuja oferta doméstica seja insuficiente para atender à demanda interna. Além disso, há forte integração produtiva entre setores brasileiros e norte-americanos, especialmente em cadeias ligadas à mineração e metalurgia, o que pode manter parte da demanda ativa mesmo diante do aumento dos custos de importação.

Ainda assim, a Fiepa reconhece que os efeitos não serão homogêneos. Setores mais dependentes do mercado americano e sem proteção das exceções tarifárias deverão enfrentar pressão competitiva maior, enquanto produtos estratégicos, de difícil substituição ou essenciais para cadeias industriais dos EUA tendem a sofrer impactos mais moderados.

O episódio reforça uma preocupação crescente entre exportadores brasileiros: a necessidade de ampliar mercados e reduzir vulnerabilidades diante do avanço de políticas protecionistas em economias centrais. Para o Pará, cuja balança comercial permanece fortemente ancorada em commodities minerais e metálicas, a disputa comercial entre Brasília e Washington pode funcionar como novo teste de resistência para a indústria exportadora do Estado.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.