Dia Gospel previsto para aniversário de Belém reabre debate no âmbito municipal Governo testa pressa no saneamento, mas encontra resistência em reunião relâmpago Mudanças reduzem a formação geral e provocam reação na rede de ensino
MARCAS E BANDEIRAS

Consumo, política e o perigoso atalho das imagens na vida contemporânea

Da Havaianas à Nike usada por Maduro no ato da prisão, episódios expõem como a polarização transforma publicidade e vestuário em códigos ideológicos e reduz debate a símbolos fáceis de consumir

  • 284 Visualizações
  • Da Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 05/01/2026, 08:30
Consumo, política e o perigoso atalho das imagens na vida contemporânea
A


política contemporânea encontrou nas marcas um atalho eficiente - mas arriscado - para comunicar posições, gerar pertencimento e mobilizar afetos. Em um ambiente saturado de informação e marcado pela polarização, símbolos reconhecíveis substituem argumentos complexos. Foi assim com a campanha de fim de ano feita no Brasil pela marca de sandálias Havaianas e, guardadas as devidas proporções, ocorre agora com a marca Nike em um episódio de amplitude internacional que mistura imagem, poder e consumo.

 

Vestuário de Maduro no momento da prisão mostra como o consumo passou a falar bem mais alto, às vezes no lugar dos argumentos/Fotos: Divulgação.

No comercial das Havaianas, a marca propôs começar 2026 “com os dois pés”, rompendo com a expressão “pé direito”, o que logo foi interpretado como ataque à direita no ambiente polarizado em que o Brasil se encontra. As reações envolveram pedidos de boicote à marca e muitas discussões nas redes sociais, com destaque na mídia nacional e internacional, impactando inclusive no mercado, apesar da rápida recuperação das ações da empresa, que chegaram a cair 3% na bolsa. Além disso, a polêmica abriu margem para outras marcas de sandálias surfarem na crise da Havaianas.

Enquadramento na guerra

No caso da Nike, foi uma imagem que atravessou fronteiras. Após o presidente dos EUA, Donald Trump, divulgar a fotografia do líder venezuelano Nicolás Maduro detido, algemado e vendado, um detalhe de enquadramento chamou a atenção em nível global: o agasalho cinza usado por Maduro foi logo identificado como um conjunto da marca Nike que tem até nome próprio: “Nike Tech Fleece”.

Leia logo mais:
GEOPOLÍTICA DO PETRÓLEO 
Como a Venezuela 
desafiou hegemonia do
dólar e poderia redefinir
ordem global 
Por Chico Cavalcante | Especial

Para além da ironia do destino que reside em uma marca norte-americana, nascida nos Estados Unidos, estar vestindo um líder adversário justamente na hora da sua prisão pelos EUA, o fato também bastou para acionar leituras de contradição ideológica, pequenas narrativas e, claro, os memes que povoam a internet.

Buscas pela marca

A prova da relevância da associação da marca ao cenário está no interesse quase instantâneo despertado pelo fato retratado. De acordo com o portal Poder 360, as buscas pelo termo “Nike Tech Fleece” dispararam no Google ao longo do sábado, 3 de janeiro, data na qual foi realizada a operação militar norte-americana que culminou com a captura de Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. Ambos foram detidos em Caracas e levados para Nova York, nos EUA.

De acordo com o Google Trends, o número de pesquisas saltou de 11 buscas por volta das 8h44 do sábado para 100 buscas às 21h32 da mesma data (horário de Brasília), um aumento equivalente a 809%. Quem fez as buscas também teve a oportunidade de saber os valores. No Brasil, a jaqueta é vendida no site da marca por R$ 949,99. A calça sai por R$ 759,99.

 Bandeiras portáteis

A coluna ouviu o jornalista, professor e cientista político Rodolfo Marques (foto acima), que interpreta os episódios como parte de um mesmo fenômeno. Para ele, marcas hoje funcionam como “bandeiras portáteis” e condensam narrativas complexas como liberdade, rebeldia, status, globalismo ou nacionalismo, em objetos imediatamente reconhecíveis. “Em ambientes de alta polarização, o consumo vira discurso: vestir uma marca passa a comunicar pertencimento sem exigir explicações longas”, destaca ele.

Rodolfo aponta ainda o papel da mídia e das redes na amplificação simbólica: “quando a política entra nesses contextos, o sinal ganha tração midiática; imagens virais, memes e cobertura jornalística consolidam a marca como um atalho narrativo”, explica.

Sobre perdas e ganhos

Ele lembra que o possível ganho a ser considerado, que seria a velocidade com que esse debate corre, é superado pela perda da densidade do debate. “A marca vira um ‘atalho narrativo’ que as mídias ajudam a consolidar. Politicamente, isso revela uma transformação mais profunda: a estetização da política e a politização do consumo. Por um lado, democratiza a participação simbólica; por outro, empobrece o debate ao reduzir posições complexas a imagens. Quando marcas ‘substituem’ argumentos, o risco é confundir engajamento com performance”, alerta ele.

Custos da simplificação

O encurtamento do debate em símbolos não é neutro. Ele cria incentivos para campanhas calcularem cada palavra como potencial gatilho ideológico, para consumidores performarem identidade por meio de boicotes relâmpago e para o jornalismo disputar atenção com recortes cada vez mais visuais. Rodolfo Marques lembra que o resultado é “um ecossistema em que o sentido se desloca do conteúdo para o enquadramento, no qual uma sandália ou um agasalho podem carregar mais peso político do que programas, dados ou decisões”.

No curto prazo, empresas aprendem a gerenciar crises; no médio, ajustam linguagem e riscos; no longo, a pergunta permanece: quem ganha quando a política vira figurino? A resposta parece apontar para a lógica da viralização, não necessariamente para a qualidade do debate público.

O retrato da marca

Fundada em 1964 como Blue Ribbon Sports, por Phil Knight e Bill Bowerman, a Nike adotou o nome atual em 1971, inspirado em Niké, a deusa grega da vitória. A sede global fica em Beaverton, no Estado do Oregon, EUA. O conjunto visto na imagem de Maduro é vendido no Brasil por R$ 949,99 (jaqueta) e R$ 759,99 (calça). Valores e origem que, deslocados para o centro da cena política, ilustram como o consumo passou a falar, e bem alto, às vezes no lugar dos argumentos.

Papo Reto 

•A Agência Nacional de Mineração destacou o Pará como maior Estado minerador do Brasil, suplantando Minas Gerais, com destaque para o ferro, bauxita, cobre e manganês. 

O representante paraense na Agência, José Fernando Gomes Jr (foto), tem atuado para ampliar a compensação financeira pela exploração de recursos minerais e trazer mais divisas para a região.

•Logo, logo trabalhadores autônomos - marceneiro, pedreiro, cabelereira, pintor, eletricista ou até diarista - perceberão que, ao emitirem notas fiscais de serviço em seus respectivos CPFs, pagarão um quarto de tudo que faturarem ao governo.

Detalhe: o governo aposta na desinformação, escondendo do cidadão que se ele emitir a mesma nota pelo CNPJ - na qualidade de MEI, Microempreendedor individual -, essa taxação praticamente desaparece, não passando de R$80. 

•Brasil pode perder até US$ 3 bilhões em receita com imposto chinês sobre a carne, que pode chegar a 55%, diz a Associação Brasileira de Frigoríficos.

O regime de cotas específicas para importação do produto, imposto pela China, também azedou a vida dos produtores brasileiros que pagam preço alto por sua eficiência e, principalmente, pela fragilidade de um governo.

•Com mais de 20 medidas provisórias em tramitação, o Congresso inicia 2026 com uma pauta carregada. 

As propostas tratam principalmente de créditos extraordinários, trabalho, meio ambiente e políticas sociais, com prazos de votação concentrados entre fevereiro e abril, mesmo durante o recesso parlamentar.

Mais matérias OLAVO DUTRA

img
Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.