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NORMALIDADE?

Cultura em Belém afunda: improviso, apadrinhamento e suspeitas em série

Denúncias sobre museu e questionamentos sobre contratos da Fundação Cultural ampliam crise no setor cultural paraense.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 17/05/26 17:00
Cultura em Belém afunda: improviso, apadrinhamento e suspeitas em série
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ue a cultura no Pará atravessa um dos períodos mais delicados das últimas décadas já não é novidade para artistas, produtores e servidores do setor. O problema é que, à medida que os meses passam, as denúncias se acumulam, os equipamentos culturais se deterioram e cresce a percepção de abandono institucional justamente em uma capital que tenta se vender nacionalmente como vitrine cultural da Amazônia.

 

Notas oficiais são o mecanismo que a prefeitura lança mão para tentar explicar-se à classe artística; não tem funcionado/Fotos: Divulgação.

Na Prefeitura de Belém, a gestão insiste no discurso de normalidade, mas fatos recentes envolvendo o Museu de Arte de Belém (Mabe), a condução dos editais da Política Nacional Aldir Blanc e novos questionamentos sobre contratos milionários da Fundação Cultural do Pará mostram um cenário bem diferente do propagandeado oficialmente.

Museu aberto e notas...

A situação do Mabe ganhou novo desgaste após declarações da diretora de programação do museu, Nina Matos, durante audiência pública na Assembleia Legislativa. Segundo ela, o espaço só não fechou as portas graças ao esforço dos poucos servidores ainda ativos no equipamento cultural.

A reação da prefeitura veio em forma de nota, garantindo que o museu segue funcionando normalmente, com exposições abertas ao público das 9h às 16h.

O problema é que a realidade parece não acompanhar a versão oficial.

No mês passado, um turista que tentou visitar o museu às 14h encontrou as portas fechadas e foi informado de que o expediente já havia encerrado.

A prefeitura também destacou que o museu possui direção própria, exercida por Josias da Silva Higino Filho, além de servidores efetivos, comissionados e estagiários. Mas documentos obtidos pelo portal Cidade 091 acabaram ampliando o desgaste político da nomeação. Josias é filho do vereador e pastor Josias Higino, aliado do prefeito Igor Normando na Câmara Municipal.

Recém-formado em Matemática e sem experiência conhecida em museologia, patrimônio histórico, artes visuais ou gestão cultural, Josias ocupa a diretoria Administrativa e Financeira do Mabe com salário superior a R$ 7 mil, segundo o Portal da Transparência.

 Reação acadêmica

A nomeação provocou reação imediata do Centro Acadêmico de História Professor Jorge Paulo Watrin, da UFPA, que publicou nota de “profundo repúdio” à escolha. Segundo os estudantes, a decisão representa “um ataque direto à preservação da memória, das artes e da história” da capital paraense.

A entidade também criticou o que classificou como sucateamento intelectual das instituições culturais e afirmou que entregar a direção do museu a alguém sem formação específica desrespeita museólogos, historiadores e artistas que atuam na preservação do patrimônio histórico.

Nos bastidores da área cultural, o episódio é tratado como mais um caso de loteamento político de espaços técnicos da cultura municipal.

Pnab vira propaganda

As críticas à Secretaria de Cultura também cresceram após a divulgação dos editais financiados pela Política Nacional Aldir Blanc, que somam mais de R$ 4 milhões destinados ao fomento cultural em Belém. O incômodo do setor não foi apenas com o prazo considerado exíguo para inscrições, mas também com a forma de divulgação dos editais nas redes sociais da prefeitura. Em uma das peças publicitárias, a frase de destaque dizia: “Belém investindo em cultura, formação e acesso”.

Produtores culturais reagiram imediatamente, lembrando que os recursos não pertencem à Prefeitura de Belém, mas à União, por meio do Plano Nacional Aldir Blanc. A administração municipal atua apenas como gestora dos recursos federais. Outro ponto que gerou revolta foi o calendário apertado. A divulgação ocorreu na quarta-feira, quase às 18h. As oficinas de capacitação aconteceram na quinta-feira. E as inscrições foram encerradas na sexta.

Para artistas e produtores, o prazo inviabiliza a reunião de documentos, projetos e certidões exigidos nos editais.

A crítica ficou ainda mais pesada após produtores lembrarem que os recursos já estavam disponíveis desde dezembro de 2025, conforme cronograma divulgado pelo Ministério da Cultura. Mesmo assim, a Secult Belém só tornou pública a execução dos editais praticamente na metade de maio.

“Chuva das Duas”

Enquanto a cultura oficial alega falta de recursos para manutenção de equipamentos e ações permanentes, a Fundação Cultural do Pará segue acumulando questionamentos sobre contratos milionários. O mais recente envolve o projeto “Chuva das Duas”, financiado por emenda parlamentar e executado por meio da empresa Tribus Criativa Produções e Consultoria.

Criada há apenas quatro anos, a produtora vem acumulando contratos milionários com a FCP desde 2022, embora diversos eventos vinculados à empresa praticamente não tenham divulgação pública conhecida. O contrato mais recente, firmado por inexigibilidade de licitação, prevê R$ 250 mil para apresentações realizadas nos dias 24 e 25 de abril, na praça do Caic, no Mangueirão. 

Pelos cálculos divulgados no próprio contrato, os nove artistas participantes receberiam cachês próximos de R$ 28 mil cada, mas, segundo relatos obtidos sob anonimato, alguns artistas teriam recebido cerca de R$ 3 mil - ou até menos.

O caso provocou forte reação nas redes sociais e levantou questionamentos sobre o destino do restante dos recursos previstos no projeto.

Artistas também perguntam por que a Fundação afirma constantemente não possuir orçamento suficiente para apoiar o setor, mas mantém contratos elevados para eventos praticamente invisíveis ao grande público e sem divulgação proporcional ao valor investido.

No meio cultural paraense, cresce a sensação de que a crise já deixou de ser apenas financeira. O problema agora parece estrutural, administrativo e político - justamente em um momento em que Belém tenta consolidar o discurso de capital cultural da Amazônia diante da vitrine internacional da COP30.

Papo Reto

A Assembleia Legislativa do Pará realizou sessão especial em defesa do reconhecimento do Ver-o-Peso como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. 

•A mobilização nasceu do medo dos feirantes diante de rumores sobre mudanças estruturais no complexo. 

A retirada do Porto Foca sem diálogo prévio acendeu o alerta sobre possíveis intervenções futuras na Pedra do Peixe e até na tradicional Feira do Açaí.

•Nos bastidores do Ver-o-Peso, o sentimento é de desconfiança crescente. Feirantes afirmam que ninguém apresentou projeto oficial, mas os boatos sobre deslocamento da Feira do Açaí para a região do Porto da Palha já circulam como certeza entre trabalhadores. 

Em Belém, quando o assunto mexe com tradição, rumor costuma ganhar vida própria.

•O prefeito Fred Campos decidiu transformar em caso de polícia o vídeo de um estudante de Medicina que debochava de um posto de saúde de Paço do Lumiar, no Maranhão. 

O universitário reclamava até do “tênis branquinho” usado no estágio e chamou o município de “c... do mundo”. A reação foi imediata: acionamento do Ministério Público, investigação policial e rompimento do convênio com a faculdade. 

•No interior da política nordestina, atacar cidade pequena em rede social costuma ter efeito devastador.

A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo calcula que as bets drenaram cerca de R$ 150 bilhões do comércio brasileiro em apenas dois anos. 

•O dado acende alerta em setores que já enfrentam queda no consumo e aumento da inadimplência. Empresários reclamam que parte do dinheiro que antes circulava no varejo agora desaparece em apostas feitas pelo celular.

Mais matérias OLAVO DUTRA

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.