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Leviatã à brasileira: monstro estatal que devora eleitor e ainda pede a sobremesa

Com 94 milhões de “dependentes”, Congresso aprova aumento de 390% no Fundo Eleitoral em um Estado que distribui emendas, não alfabetiza, não economiza e não dá segurança ao cidadão.

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  • Por Olavo Dutra
  • 02/10/25 08:00
Leviatã à brasileira: monstro estatal que devora eleitor e ainda pede a sobremesa
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 m monstro com a barriga cheia que meteria medo até em Thomas Hobbes. Se tivesse pousado no Congresso Nacional do Brasil, por certo Mr. Hobbes desistiria do seu “Leviatã”. 

 

Deputados aprovam aumento do Fundo Eleitoral e ‘agigantam’ o Leviatã da metáfora de Thomas Hobbes/Foto: Renato Araújo-Agência Câmara-Ilustração.

Sem metáforas, o Estado brasileiro encarna o monstro em carne, osso e gabinete refrigerado desde a última terça-feira, quando a Comissão Mista de Orçamento aprovou, simbolicamente – simbólico aqui quer dizer sem constrangimento –, um aumento de 390% no Fundo Eleitoral. O valor passa de R$ 1 bilhão para R$ 3,9 bilhões em 2026.

Se não é uma proeza, parece. O eleitor brasileiro não apenas entrega um cheque em branco ao político, mas também financia a impressão do cheque, o talão inteiro e, se possível, o cofre onde será guardado. Depois, assiste de camarote enquanto o eleito acomoda filhos, esposas, primos e até cachorros em cargos públicos. O Leviatã hobbesiano nasceu para proteger o povo do caos; o leviatã tupiniquim - com letra minúscula -, parece ter nascido para bancar churrascos eleitorais a R$ 3,9 bilhões a unidade.

Gorduras e emendas

Enquanto o ‘Fundão’ explode, as emendas parlamentares encolhem, o que não quer dizer que tudo está certinho e mensurado; muito pelo contrário. Do corte de 43% de R$ 81,4 bilhões, restaram R$ 46,4 bilhões em 2025. Os ministérios também foram para o abate: de R$ 310 bilhões, caíram para R$ 210 bilhões. O Leviatã é seletivo em sua dieta: mastiga emendas e engole o “Fundão” sem mastigar.

Na velha e amada Belém do Grão Pará resta um paradoxo: sede da COP30, a cidade tem R$ 4,9 bilhões injetados em obras e infraestrutura para receber líderes globais. Na vitrine, asfalto novo e fachada pintada; no quintal, escolas com crianças sem alfabetização plena e hospitais sem insumos.  O Brasil é o país que corta no feijão para gastar no tapete vermelho.

Coleira dos pobres

Nada menos que 94 milhões de brasileiros dependem de programas sociais, conforme a Coluna Olavo Dutra já noticiou - quase metade da população em idade ativa. Mais da metade está no Bolsa Família. É uma legião inteira que o Estado mantém na coleira curta: o benefício garante sobrevida, mas não abre portas.

Enquanto isso, o ministro da Fazenda alerta que ‘a conta só fecha’ com mais impostos. O mesmo ministro que prega avaliação de desempenho para servidores - como se a estabilidade fosse um cheque em branco - não ousa propor avaliações de desempenho para o Congresso, dono do verdadeiro cheque em branco. Afinal, cobrar eficiência de professor é fácil; cobrar eficiência de deputado, suicídio político.

Estudar com fome

A carne bovina em Belém custa em média R$ 39,59 o quilo. Houve queda pontual em agosto, mas no acumulado de 12 meses o preço subiu quase 10%. Comer carne virou evento de luxo; feijão com ovo, mortadela e açaí, virou padrão alimentar - e aqui vai uma nota do redator: não me venham com essas de que açaí com camarão ou peixe frito é para qualquer um; não no Veropa, de onde - também - o feirante e o populacho financiam campanhas milionárias, mas não conseguem financiar o próprio almoço de domingo.

Na educação, a tragédia é cruel: só 59,2% das crianças do 2º ano da rede pública foram alfabetizadas em 2024 - a meta era 60% - e o resultado, um fracasso. No Pará, índios, quilombolas e crianças da periferia estão entre os desassistidos. Se o Leviatã fosse professor, estaria reprovado em alfabetização básica, mas, ainda assim, ganharia reajuste salarial.

Segurança. Segurança?

Facções criminosas movimentam maquininhas, helicópteros e iates Brasil afora e Belém está no mapa. O monopólio da força, que Hobbes via como essência do Estado, virou sociedade anônima, ou seja, parte pública, parte paralela no Pará.

Para não perder o folclore - nem o fôlego -, a Polícia Federal flagrou fraude contra a aposentadoria do presidente Lula: alguém tentou transferir o benefício para uma conta no Pará. Ora, ora, ora, com todo o respeito: se até o chefe da Nação é vítima, “em quem te interessa a minha morte, Bakunin?" 

Tenha dó da gente

No Brasil varonil, o cidadão comum precisa provar, com três certidões, que ainda está vivo para sacar o próprio benefício; financia compulsoriamente o banquete político; paga impostos escorchantes e as contas de campanhas e os juros e o almoço do Leviatã.

Papo Reto

O presidente Lula (foto) cumpre agenda no Pará hoje e amanhã. O presidente começa a visita por Breves, onde inaugura uma creche, de manhã. 

•À tarde, em Belém, confere as obras do Porto Futuro II; percorre o Museu das Amazônias, que vai abrigar exposição “Amazônia “, de Sebastião Salgado; e o Centro Gastronômico e o Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia. 

Amanhã, Lula visita as obras de macrodrenagem e urbanização do Canal da União; e vistoria o Parque da Cidade, local que vai sediar os eventos da COP30.

•À tarde, o presidente participa da inauguração do Parque Linear da Doca.  

O Ibama e a Polícia Federal estão com forte atuação na região de Dom Eliseu, Rondon do Pará, Abel Figueiredo e Jacundá envolvendo desmatamentos e serrarias irregulares.

•Ontem, os policiais fecharam serrarias em Rondon do Pará e Abel Figueiredo, conferindo e retendo madeira.

Em Abel Figueiredo, o empresário Wenner Kenner tentou retirar madeira irregular retida em seu pátio, mas foi denunciado.

•Uma carreta de sua propriedade carregada com a madeira foi flagrada na BR-222, entre Abel Figueiredo e Bom Jesus do Tocantins, e inutilizada.

Um trator de esteira foi apreendido numa aérea de fazenda entre os municípios de Abel Figueiredo e Rondon do Pará. O trator seria do vereador Fábio Lacerda, o “Manguinho”, do PSB, genro do ex-prefeito Hidelfonso Araújo, do MDB.


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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.