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Não mexam com a Marujada. Tentativa de mudança reacende disputa histórica.

Tentativa de mudar a data da tradicional Chegança reabre confronto entre a Irmandade de São Benedito e a Igreja Católica em Bragança.

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 06/06/26 17:00
Não mexam com a Marujada. Tentativa de mudança reacende disputa histórica.
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tentativa de mudança da data da Chegança da Marujada de São Benedito, em Bragança, reacendeu um conflito histórico que atravessa gerações no nordeste paraense: a disputa entre a tradição popular construída pelo povo e o controle institucional da Igreja Católica sobre uma das maiores expressões culturais e religiosas da Amazônia.

 

Decisão anunciada pelo Padre Elias esbarrou na reação popular; pressão surtiu efeito e bispo diocesana manteve a data da Chegança/Fotos: Divulgação.

Muita gente imagina que a Marujada acontece apenas nos dias 25 e 26 de dezembro, mas a festividade começa meses antes, entre abril e maio, quando as tradicionais Comitivas deixam Bragança para percorrer rios, praias e comunidades rurais em jornadas que podem durar até oito meses. São três comitivas: da Colônia, do Rio e da Praia. Elas percorrem comunidades levando a imagem de São Benedito, rezas, ladainhas, tambores e cantorias, enquanto arrecadam donativos que ajudam a custear a grande festividade de dezembro.

O ponto alto dessa longa preparação acontece em 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, quando a Comitiva da Praia retorna à cidade e é recebida por centenas de devotos às margens do rio Caeté, em uma celebração conhecida como Chegança.

Dois séculos depois

A tradição atravessa mais de dois séculos. Existe desde 1798 e, em 2024, foi reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

Por isso, causou forte reação em Bragança a decisão anunciada pelo padre Elias, da Arquidiocese local, de transferir a Chegança do dia 8 para o primeiro sábado de dezembro. O anúncio foi feito ao final das missas da paróquia, sob justificativa de incompatibilidade de agenda clerical por conta das celebrações dedicadas à Nossa Senhora da Conceição.

A resposta da cidade foi imediata.

 Uma data intocável

Moradores, integrantes da Irmandade de São Benedito e devotos reagiram duramente à possibilidade de alteração da data, considerada intocável dentro da tradição bragantina. O presidente da Irmandade, conhecido como Careca, junto com a Capitoa da Marujada e demais integrantes da organização, repudiaram publicamente a tentativa de mudança.

O episódio mobilizou reuniões emergenciais. O Iphan foi acionado oficialmente e houve audiência com a superintendência do órgão no Pará. A Irmandade também solicitou intervenção direta do bispo de Bragança, Dom Raimundo Possidônio. A pressão surtiu efeito.

 E a Igreja recuou...

Após reunião no Palácio Episcopal, o padre Elias recuou da decisão e informou que a data não seria mais alterada. Ainda assim, integrantes da Irmandade aguardam manifestação formal da Diocese assegurando definitivamente a manutenção do dia 8 de dezembro como data oficial da Chegança.

O episódio, porém, vai muito além de uma simples disputa de calendário. Ele recoloca em evidência uma tensão histórica entre a devoção popular construída pelos descendentes de escravizados e o processo de centralização promovido pela Igreja Católica ao longo do século XX.

A Irmandade de São Benedito surgiu ainda no período colonial, formada majoritariamente por pessoas escravizadas e libertas, que mantinham autonomia sobre a organização da festa, das procissões e das arrecadações.

Em 1854, a Irmandade pediu autorização para construir sua própria igreja. O templo de São Benedito, concluído décadas depois, se transformou no principal símbolo religioso e cultural da festividade e hoje é patrimônio histórico do Pará. Mas a convivência entre a Irmandade e a Diocese nunca foi inteiramente pacífica.

Na segunda metade do século passado, o avanço do processo de romanização da Igreja Católica - movimento que buscava padronizar práticas religiosas populares - ampliou as disputas pelo comando da festividade, da igreja e do patrimônio ligado ao culto de São Benedito.

Memória coletiva

A tensão aumentou quando a antiga Irmandade se registrou civilmente como entidade autônoma. A Diocese reagiu judicialmente e conseguiu retomar oficialmente a posse da igreja e dos bens ligados à celebração.

Desde então, a festa passou a funcionar em regime de convivência delicada entre tradição popular e autoridade eclesiástica.

Episódios como a tentativa de mudança da Chegança mostram que essa disputa nunca desapareceu completamente. Para os bragantinos, mexer na data da chegada das comitivas não significa apenas alterar um calendário religioso. Significa interferir em uma memória coletiva construída há mais de duzentos anos, mantida por gerações de famílias que enxergam na Marujada não apenas uma festa, mas parte da própria identidade cultural da cidade.

Em Bragança, todos sabem: tradição pode até se adaptar ao tempo, mas dificilmente aceita ser empurrada.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.