Violência política contra mulheres entra no radar da Justiça Pará tem 942 pistas clandestinas usadas por garimpo ilegal e pelo narcotráfico Garimpo ilegal muda estrutura e amplia a crise indígena no sudoeste do Pará
CRIME ORGANIZADO

Garimpo ilegal muda estrutura e amplia a crise indígena no sudoeste do Pará

Estudo da Uepa mostra adaptação das redes criminosas à fiscalização, avanço da lavagem de dinheiro e impacto nas cidades e terras indígenas

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  • Redação | Coluna Olavo Dutra
  • 16/05/26 08:00
Garimpo ilegal muda estrutura e amplia a crise indígena no sudoeste do Pará
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dinâmica do garimpo ilegal na Amazônia mudou de forma acelerada nos últimos anos. Pressionadas pelas operações federais de desintrusão em terras indígenas, as redes criminosas abandonaram parte dos grandes maquinários e passaram a operar com equipamentos menores, mais discretos e de difícil rastreamento. O aparente “retrocesso técnico”, porém, esconde uma sofisticada adaptação logística e financeira.

Em Jacareacanga e Itaituba, sudoeste paraense, garimpo passou a moldar parte significativa da economia e do comportamento da população/Fotos: Divulgação.
É o que aponta o estudo O Circuito Espacial do Garimpo Ilegal no Pós-Desintrusão, lançado pela Universidade do Estado do Pará (Uepa), em parceria com o Instituto Mãe Crioula. O levantamento mostra que o garimpo ilegal deixou de ser apenas uma atividade predatória isolada para se transformar em uma engrenagem econômica que movimenta comércio, transporte, serviços e organizações criminosas.

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Dependência econômica

Em municípios como Jacareacanga e Itaituba, no sudoeste paraense, o garimpo passou a moldar parte significativa da economia local. Pequenos comércios, oficinas, postos de combustível, embarcações, aeronaves e prestadores de serviço sobrevivem direta ou indiretamente da atividade ilegal.

Em Jacareacanga, a estrutura criada para dar suporte aos garimpeiros foi tão intensa que originou o bairro dos Alagados, hoje incorporado oficialmente ao município.

O estudo aponta que a expansão econômica dessas cidades acompanha o avanço do garimpo. Entre 2014 e 2023, o número de caminhões quase triplicou no município, enquanto a frota de caminhonetes e motocicletas também disparou. No mesmo período, o PIB local saltou de R$ 177 mil para mais de R$ 625 mil.

Para os pesquisadores, trata-se de uma “minero-dependência”: cidades inteiras passam a depender financeiramente da manutenção das invasões em áreas indígenas.

Facções e lavagem

O levantamento também desmonta a antiga imagem do garimpo artesanal. Segundo a pesquisa, a atividade hoje opera integrada a esquemas de lavagem de dinheiro, fundos de investimento clandestinos e redes do crime organizado.

Operações da Polícia Federal, como a Carbono Oculto, Flygold II e Munduruku Log, revelaram conexões entre o comércio ilegal de ouro, tráfico de drogas, grilagem de terras e movimentações financeiras bilionárias. A estratégia atual envolve logística pulverizada: aeronaves menores, pistas clandestinas, embarcações rápidas e maquinário compacto que dificulta o monitoramento por satélite e radar.

Em fevereiro de 2025, a PF bloqueou R$ 24 milhões em uma operação voltada à estrutura de abastecimento dos garimpos em áreas Munduruku. Antes disso, outra investigação identificou movimentação de cerca de R$ 6 bilhões em comércio ilegal de ouro.

Indígenas pressionados

O impacto mais profundo recai sobre os povos indígenas. Os Munduruku - ao lado de Yanomami - e Kayapó, estão entre os grupos mais afetados pelo avanço do garimpo no País.

A pesquisa mostra que muitos jovens indígenas acabam atraídos pela renda imediata da mineração ilegal, abandonando atividades tradicionais como agricultura, pesca e extrativismo. Ao mesmo tempo, comunidades inteiras enfrentam deslocamento para periferias urbanas precárias, sem saneamento e expostas à violência.

“Há uma desterritorialização dessas populações, que passam a ocupar bairros precarizados próximos às cidades”, observa o pesquisador Fabiano Bringe, um dos autores do estudo.

A maior parte da mão de obra dos garimpos, porém, ainda vem de migrantes maranhenses e nordestinos submetidos a jornadas exaustivas, exposição ao mercúrio e ausência de qualquer proteção trabalhista.

Ouro e destruição local

Os pesquisadores alertam que a cadeia do ouro ilegal ultrapassa a Amazônia. Parte significativa do minério extraído clandestinamente segue para mercados internacionais, alimentando centros comerciais e joalherias na Europa, Oriente Médio e Ásia. Enquanto isso, os municípios garimpeiros convivem com crescimento desordenado, explosão da violência, contaminação ambiental e aumento da dependência econômica de uma atividade sustentada por estruturas criminosas cada vez mais sofisticadas.

O estudo conclui que operações policiais, embora importantes, não serão suficientes sem alternativas econômicas permanentes para a região e sem mecanismos internacionais de rastreabilidade do ouro comercializado no exterior.

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.