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O Brasil que trabalha e o Brasil que depende: que sociedade estamos construindo?

Enquanto o Estado amplia sua gigantesca rede assistencial, quem produz enfrenta cenário bem diferente

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  • José Croelhas | Especial para a COD
  • 13/09/26 10:00
O Brasil que trabalha e o Brasil que depende: que sociedade estamos construindo?

Há números que deveriam provocar um debate nacional muito mais sério. O Brasil chegou ao trimestre encerrado em julho de 2026 com 103,3 milhões de pessoas ocupadas e desemprego de 5,3%. Aliás, esse dado do IBGE vem sendo bastante questionado em razão das mudanças na metodologia de cálculo do índice.


Mas existe outro Brasil. Em agosto, 19,3 milhões de famílias estavam no Bolsa Família, enquanto o Cadastro Único reunia 97,7 milhões de brasileiros. Isso não significa que todos vivam de benefícios - muitos trabalham e complementam renda. O problema é a dimensão da dependência estatal que construímos.


Somente em agosto, o Bolsa Família movimentou cerca de R$ 13 bilhões. A assistência aos realmente necessitados é obrigação de qualquer sociedade civilizada. Mas política social deveria funcionar como ponte, não como residência permanente. Seu sucesso deveria ser medido também pelo número de famílias que conseguem deixá-la por aumento sustentável da renda.


Enquanto o Estado amplia sua gigantesca rede assistencial, quem produz enfrenta cenário bem diferente.


Os pedidos de recuperação judicial atingiram níveis históricos. Em 2025, 2.466 empresas estiveram envolvidas em recuperações judiciais, novo recorde. E os pequenos negócios aparecem entre os mais vulneráveis: em abril daquele ano, quase 80% dos pedidos vieram de micro e pequenas empresas.


O drama chega às famílias. Em abril de 2026, o país alcançou 83,3 milhões de consumidores inadimplentes, mais da metade da população adulta, acumulando R$ 568 bilhões em dívidas negativadas. É nesse ponto que a classe média começa a ser espremida.


Na base, o Estado distribui benefícios. No topo, grandes grupos possuem estrutura para enfrentar impostos, juros e burocracia. No meio está quem trabalha, empreende, paga impostos e sustenta boa parte da máquina.


Uma democracia forte precisa de uma classe média numerosa e independente. Quando ela perde renda, patrimônio e capacidade de empreender, não estamos produzindo igualdade. Estamos distribuindo empobrecimento.


Há ainda a crescente dependência econômica da China. Não se trata de demonizar nosso maior parceiro comercial. Países negociam por interesses, não por amizades ideológicas. Mas justamente por isso o Brasil deveria defender obsessivamente os seus.


Em 2024, cerca de 80% das exportações brasileiras para a China estavam concentradas na agricultura e na indústria extrativista, especialmente soja, minério e petróleo. Entre janeiro e agosto de 2026, os chineses absorveram 30,7% de todas as exportações brasileiras.

Vendemos sobretudo commodities e recursos naturais enquanto importamos grande quantidade de produtos industriais, máquinas e tecnologia. Parceria comercial, sim. Vocação para colônia de matérias-primas, não.


Nesse contexto, ganha atualidade uma antiga declaração atribuída a Lula, em 1987, falando em um horizonte de “30 ou 40 anos” para implantação do socialismo no Brasil. A autenticidade e o contexto histórico da gravação devem ser tratados com cautela. Mas nem precisamos dela para discutir o presente. Basta olhar os números.


Milhões dependentes de transferências públicas, empresas recorrendo em número recorde à recuperação judicial, mais da metade dos adultos inadimplentes, pequenos empreendedores pressionados e uma classe média perdendo capacidade de acumular patrimônio.


A pergunta é inevitável: que sociedade estamos construindo?


O problema não é ajudar o pobre. É transformar assistência emergencial em dependência permanente. O Brasil não precisa simplesmente acabar com o Bolsa Família. Precisa construir um País em que cada vez menos brasileiros precisem dele.


Porque a melhor política social não é ensinar o cidadão a depender eternamente do Estado. É dar-lhe condições para não precisar dele.


Foto: Divulgação

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José Croelhas é economista,

consultor, escritor e palestrante

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Olavo Dutra

Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.