Manaus. AM - Facções criminosas como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) têm usado barcos com cargas de pirarucu e outras espécies de pescado para transportar grandes quantidades de cocaína e skank, conhecido como “supermaconha”, pelos rios da Amazônia.
“A gente até ia trabalhar com um incentivo à cadeia do pirarucu, mas deu um passo atrás justamente pela vulnerabilidade das pessoas que estavam ali e que tinham inclusive medo de se envolver nessa cadeia por conta do crime organizado”, disse Marta Machado, secretária nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos do ministério.
O governo federal agora discute investir em novas cadeias produtivas na região, perto de onde foram assassinados em 2022 o jornalista Dom Phillips e o indigenista Bruno Pereira após conflitos com um grupo que estaria envolvido em pesca ilegal no Vale do Javari.
Autoridades apontam ainda queda drástica no turismo nos últimos anos, o que elevou o desafio de criar incentivos de renda à população, até para frear a cooptação dos moradores pelas facções. Alguns dos municípios da região, como Atalaia do Norte, têm índices de desenvolvimento humano (IDH) bem abaixo da média do Estado.
“Tem ali (na região do Alto Rio Solimões) forte convergência de tráfico de drogas com a cadeia do pirarucu, tem vários casos do peixe sendo transportado com droga dentro”, afirma Marta. As facções agem até em comunidades indígenas e quilombolas.
“Há uma espécie de compartilhamento de logística: a gente vê isso com fauna, com carregamento de madeira, que vai com droga também”, diz a secretária. Segundo ela, os bandidos não deixam de vender o peixe transportado com a droga, em uma relação “ganha-ganha”.
O avanço do tráfico de drogas na Amazônia contribui ainda para impulsionar a degradação ambiental na floresta, com alta do desmatamento e do garimpo em áreas protegidas.
Diante disso, o ministério prevê buscar não só reforço à fiscalização e à repressão dos grupos que cometem crimes na região, mas também na prevenção ao aliciamento. “Como a gente fortalece as comunidades locais, especialmente as comunidades indígenas, para que não sejam aliciadas pelo crime organizado?”, questiona Marta.
Em julho, a Polícia Militar do Amazonas apreendeu 23 quilos de droga, entre cocaína e skank, após abordagem a um barco que passava por volta das 2h20 da madrugada pela base arpão em Coari, no Médio Solimões.
Essas bases são estruturas que funcionam como postos policiais dos rios e auxiliam nas abordagens a embarcações.
A apreensão se deu após um cão farejador da corporação apontar suspeita ao chegar perto de onde estava uma caixa de isopor com peixes e pedras de gelo no setor de encomendas da embarcação (vídeo no topo da reportagem).
O prejuízo estimado, com a apreensão, foi de R$ 268,9 mil, conforme o registro policial. A embarcação havia saído da cidade de Tefé com destino a Manaus.
A origem da droga ainda é investigada, mas geralmente vem de Peru ou Colômbia. O transporte é feito por espécies de “consórcios” do crime. São grupos compostos não necessariamente por faccionados, mas por parceiros no mundo do narcotráfico.
Além de misturar entorpecentes na carga de peixe, é usada a “caletagem” para transportar quantidades maiores – os pacotes são acoplados no fundo dos barcos. “Quando é muita droga, trazem no porão“, diz o major Francisco Camurça, coordenador de Inteligência da Secretaria da Segurança Pública do Amazonas.
Relatório de inteligência da pasta, obtido pelo Estadão, aponta que, além do tráfico por meio fluvial, há uso de helicópteros e aeronaves anfíbias para levar o produto ilegal.
“As drogas são ocultadas em vísceras de peixe, no ‘bucho de tambaqui’, cilindros de oxigênio, ‘caletadas’ nos porões das embarcações e em paredes falsas”, diz trecho do documento sobre a variedade de estratégias.
Estados investem em bases para facilitar abordagens
Para combater o narcotráfico, o governo do Amazonas tem quatro bases arpão distribuídas em pontos estratégicos da malha fluvial, como no Solimões. Nos rios do Pará, são outras duas, além de uma terceira em fase final de construção.
No mês passado, agentes da PM estavam em patrulhamento por volta de 1h na base arpão de Coari quando viram que um pequeno bote se soltou da embarcação maior e seguiu rente a uma das margens do rio. A ação gerou suspeita imediata.
Os policiais usaram uma lancha blindada para abordar o bote, onde havia 300 quilos de pirarucu e cerca de oito quilos de skank distribuídos em oito tabletes pretos. A droga estava no fundo da embarcação e ao menos três suspeitos foram presos.
Segundo a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, o apoio à cadeia do pirarucu foi pensado neste ano no contexto do Parque Científico e Tecnológico do Alto Solimões (PaCTAS), na cadeia da Bioeconomia, em Tabatinga, onde a Estratégia Nacional Povos Indígenas na Política sobre Drogas inaugurou há alguns meses o Centro de Acesso a Direitos e Inclusão Social Povos Indígenas.
Mas a avaliação foi de que, para o desenvolvimento específico na cadeia, seria necessário trabalho com risco de “extrapolar o tempo de gestão” disponível.
“Por isso, está em estudo o investimento em outras cadeias produtivas, onde possamos ter avanço e incidência mais imediatos e, dessa forma, contribuir com o desenvolvimento local”, informa a pasta.
“É sabido que essa região é rota do narcotráfico, inclusive os Cais Povos Indígenas são instalados em regiões onde a população está exposta às dinâmicas dos mercados ilegais de drogas – mesmo que nesses territórios os órgãos de inteligência e as forças policiais estejam em atuação constante”, continua. A pasta diz fazer escuta ativa da população antes de lançar iniciativas.
No ano passado, foram apreendidas 43,25 toneladas de cocaína e maconha no Estado. Trata-se do recorde da série histórica, com alta de 50% ante 2023.
Já em 2025, de janeiro a julho, foram apreendidas quase 25 toneladas de droga, o que aponta para uma tendência de novo recorde até o fim do ano.
No primeiro semestre deste ano, o Pará, por sua vez, registrou a apreensão de quase 10 toneladas de cocaína e maconha, aumento de 37,7% em relação ao mesmo período de 2024.
Assim como no Amazonas, o Estado registrou recorde nas apreensões no ano passado, com 13 toneladas de droga retiradas de circulação.
‘Precisa proteger e fortalecer as comunidades’
Um desafio, diz Marta, é facilitar a denúncia de irregularidades em territórios indígenas e, ao mesmo tempo, preservar a integridade física dos povos tradicionais Como mostrou o Estadão, algumas comunidades têm proteção própria, com uso até de drones.
A secretária afirma que, além de lançar o centro de acesso a direitos em Tabatinga, a Senad planeja uma espécie de índice para medir a presença de organizações criminosas em territórios indígenas, com previsão de lançamento na Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP-30), que ocorre em novembro em Belém.
Territórios em Tabatinga e outras cidades da fronteira estão entre os principais pontos de preocupação. “A gente precisa proteger e fortalecer as comunidades locais para evitar o aliciamento, evitar a colaboração com o crime”, diz ela.
Em Atalaia do Norte, município perto de Tabatinga, no Vale do Javari, comunidades indígenas trabalham há quase uma década com o manejo do pirarucu, em projetos montados de forma autônoma por diferentes grupos, como os kanamari, e entidades que atuam na região.
Os projetos focam não só na pesca do pirarucu, mas na aproximação entre comunidades ribeirinhas e indígenas para fortalecimento e proteção dos territórios. São cerca de 69 aldeias indígenas e 17 comunidades ribeirinhas mapeadas só na Terra Indígena Vale do Javari e arredores, segundo a prefeitura.
PUBLICIDADE
A gestão municipal lançou há cerca de quatro anos uma iniciativa própria de manejo, com projeto piloto reconhecido na categoria inclusão produtiva pelo prêmio estadual Sebrae Prefeitura Empreendedora.
A iniciativa consiste em financiar expedições para que comunidades indígenas atuem na pesca manejada do pirarucu em lagos ao longo do Vale do Javari e do entorno. Os lucros ficam para as comunidades e povos tradicionais envolvidos, segundo a prefeitura.
Parte das lideranças comunitárias critica o projeto, por não enxergar vocação efetiva de apoio às comunidades e à proteção ambiental. A complexidade logística também é um entrave – o investimento feito ao longo dos três primeiros anos foi de ao menos R$ 900 mil, sendo mais de R$ 200 mil em combustível.
Balanço do secretário de Governo e Comunicação Social de Atalaia, Rubeney de Castro Alves, aponta que o projeto piloto já beneficiou quase 350 das 1,6 mil famílias indígenas do Vale do Javari. A meta da prefeitura é que todas sejam atendidas até 2028.
Conforme o município, o projeto tem apoio de parceiros, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e a Coordenação de Proteção Etnoambiental e Desenvolvimento Sustentável Kanamari (Copeaka).
Foto: Divulgação/PCPA
(Com O Globo)