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Com clima e desmate descontrolados, Amazônia começa a colapsar em 2050, diz estudo

Pesquisa analisou dinâmica da chuva na região e indica que de 10% a 47% da mata remanescente podem não ter umidade suficiente para se sustentar dentro de 25 anos.

14/02/2024 19:57
Com clima e desmate descontrolados, Amazônia começa a colapsar em 2050, diz estudo

Rio de Janeiro (RJ) - A Amazônia pode estar mais perto de transformações irreversíveis do que se imaginava, e causar impacto para o clima mundial. Um novo estudo avaliando o impacto duplo do desmatamento e do aquecimento global sobre a floresta do bioma indica que quase metade da floresta pode entrar numa trajetória de degradação sem volta até 2050.


O trabalho publicado nesta quarta, 14, como tema de capa da revista científica Nature, fez uma análise combinando dados de simulações com observações do ecossistema local, e indica que o chamado "ponto de não retorno" pode ser cruzado até o meio do século em 10% a 47% do território do bioma que ainda tem mata em pé.


A floresta perderá sua função de produtora de água, que distribui umidade na atmosfera. E poderá passar de sumidouro para emissora de CO2, com impacto para o clima global, como a elevação da temperatura e da frequência e duração de secas.


Esse caminho sem volta significa que parte das florestas pode se transformar em savanas empobrecidas de fauna e flora, sem capacidade de fixar carbono e produzir água. Savanas que nada lembram o Cerrado original e sim campos degradados. Outras podem ser degradadas ao ponto de se tornarem emissoras de CO2 em vez absorvedoras, coisa que já ocorre no Sudeste do bioma. Florestas altas e vigorosas podem dar lugar a matas mais baixas e disfuncionais.


Liderado pelos pesquisadores Marina Hirota e Bernardo Flores, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o estudo detalha as previsões de ponto sem retorno, apresentadas pela primeira vez, há mais de duas décadas pelo climatologista Carlos Nobre, também integrante do novo estudo.


Para estimar quantas e quais partes da floresta serão capazes de sobreviver, os pesquisadores analisaram os fatores que regulam o estresse hídrico sobre o bioma, ou seja, a quantidade de chuva para que o bioma amazônico sobreviva. Tipicamente, abaixo de um limiar de 1.000 mm a 1.250 mm de chuva por ano não existe floresta, e o novo estudo busca prever onde ficam as áreas que serão submetidas a essa transição.


Estudo em fósseis


Além de dados observados e de projeções, o trabalho colocou na conta o resultado de estudos paleoecológicos, que mostram como a mata e a biodiversidade se comportavam milhões de anos atrás, quando condições climáticas eram diferentes. Os cientistas também consideraram quais áreas analisadas ficam dentro de unidades de conservação ou em terras indígenas, onde tradicionalmente o desmatamento é menor.


Ao final, a análise mostrou que uma parte significativa do centro da Amazônia (abrangendo leste do Amazonas, Oeste do Pará, sul de Roraima e norte do Mato Grosso) está sob grande risco. Nesses locais, se o desmatamento ou a mudança climática não forem freados, a floresta deve se converter em ambientes não florestais ou em floresta degradada.

Mais de 15% da floresta amazônica já foi efetivamente derrubada. Somados a outros 10% (no mínimo) que o estudo de Flores projeta, o total de área não florestal já pode chegar a 25% no meio do século.


Consenso e incertezas


Há uma grande incerteza sobre qual é o limiar desse ponto, mas estudos de Carlos Nobre indicam que talvez ele seja tão baixo quanto 20% da Amazônia. Segundo Flores, a projeção feita no trabalho na Nature leva em conta uma tendência de aquecimento global e de desmatamento regional tal qual foi observada nos últimos anos. “Se a gente conseguir zerar o desmatamento até 2030 e zerar as emissões de gases do efeito estufa até 2050 em nível global, a Amazônia com certeza vai estar segura”, diz o cientista.


Entre as variáveis das quais essa projeção depende estão o entendimento de como balanço de carbono da floresta está sendo alterado, ou seja, quanto CO2 está sendo absorvido ou emitido. Outro elemento de incerteza na equação é a chamada "fertilização de carbono", um efeito que faz plantas acumularem mais massa numa atmosfera mais rica em CO2.


O resultado publicado agora na Nature é preocupante porque, reunindo dados em maior qualidade e quantidade, o cenário que se antevê é pior, não melhor do que o antes imaginado.


(Foto: Divulgação Greenpeace)


(Com O Globo)

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