Três líderes indígenas e dois professores foram espionados pelo Serviço de Inteligência do Pará

Dossiês detalham nomes, etnias e registros fotográficos das lideranças e apontam não apenas um problema de segurança pública, mas um atentado à democracia, segundo juristas.

21/08/2025, 09:57

A ocupação da Secretaria de Educação revela um papel do Estado que não condiz com a democracia, mas é o que os governos fazem/Foto: Agência Pará-Vídeo, Adriano Wilkson.


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spionar opositores é a forma com que os setores de Inteligência dos governos operam. Os agentes são pagos para isso - e não se pode imaginar que o SNI, no Brasil de democracia plena, a CIA, nos Estados Unidos, ou o Mossad, em Israel, trabalham nesse campo “lendo jornais”. 

Nesta semana, o chefe da Inteligência do governo do Pará, Carlos André Ciana (vídeo) fez do Estado protagonista de denúncia do repórter Adriano Wilkson no episódio sobre a invasão do prédio da Secretaria de Educação, no início do ano - o mesmo caso no qual foi acusado de fake news pelo Ministério Público Federal. Ao próprio site que publicou a informação do jornalista, o governo do Pará se pronunciou sobre o caso.

Segundo a denúncia, o Serviço de Inteligência do Estado teria usado o programa de direitos humanos, destinado a defender minorias, para espionar lideranças indígenas e professores envolvidos na invasão da Secretaria de Educação a partir da infiltração de agentes secretos e monitoramento político: o cacique Dadá Borari, da Terra Indígena Maró; Alessandra Korap, da etnia  Munduruku, no Médio Tapajós; e Auricélia Arapium, do Baixo Tapajós; além da ex-vereadora e presidente do Sintepp, Silvia Letícia e o professor Beto Andrade.

A invasão da Seduc expôs feridas profundas que sangram até hoje no governo do Estado, culminando com a denúncia de fake news contra as comunidades indígenas pelo MPF. Naquela ocasião, as notas supostamente falsas divulgadas pelo governo - e publicadas com exclusividade pela Coluna Olavo Dutra - davam conta de que o projeto de educação aprovado pela Assembleia Legislativa não mexeria nos direitos indígenas, que estavam negociando com o governo havia meses. 

Um movimento contrário, porém, capitaneado pelo Psol, mobilizou uma das regionais indígenas, do oeste do Pará, dada como uma das principais responsáveis pela invasão. Agora, a revelação feita pelo repórter investigativo Adriano Wilkson acende o alerta sobre os limites da atuação do governo do Pará e abre nova ação do MPF para aprofundar o caso.

Segundo a denúncia, a área de inteligência do governo Helder Barbalho teria utilizado um programa originalmente vinculado à Secretaria de Direitos Humanos para espionar e infiltrar agentes secretos em manifestações indígenas e sindicais, a partir do dia 14 de janeiro deste ano, contra medidas da Secretaria de Educação.

Dossiês secretos

Dois relatórios oficiais da própria Inteligência estadual confirmam que o Estado não apenas acompanhou de perto a ocupação da Seduc, mas produziu dossiês detalhados com nomes, etnias e até registros fotográficos e de redes sociais das lideranças envolvidas. Entre os alvos listados estão figuras conhecidas no movimento indígena e professores ligados ao Psol.

A produção desses documentos mostra que o governo classificou o ato como “manifestação político-sindical” e tratou a mobilização como ameaça de segurança, destacando inclusive que os indígenas teriam recebido “porretes de apoiadores externos” e que vídeos indicavam “preparação para confronto”.

Cárcere privado

O relatório nº 016/2025 da Secretaria de Segurança Pública do Pará vai além: descreve estratégias internas do movimento - como a decisão de manter indígenas dentro do prédio e professores no lado de fora - e acusa o Conselho Indígena Tapajós Arapiuns de manter um servidor do Ministério dos Povos Indígenas em “cárcere privado”, informação sensível e que, segundo especialistas, deveria ser apurada por vias legais, não por vigilância paralela.

O documento também inclui dados de natureza política e partidária, registrando a presença de vereadores do Psol, citando nomes de dirigentes sindicais e até listando uma suposta “chave PIX para doações” publicada em rede social, algo que se aproxima mais de monitoramento financeiro e político do que de segurança pública.

Política e infiltração

Os relatórios revelam ainda que a Inteligência do Pará passou a rastrear apoios logísticos ao movimento, como a entrega de água e colchonetes pela ex-governadora Ana Júlia Carepa, além da presença de quilombolas e professores do Sintepp. O texto deixa implícita a infiltração de agentes ao citar “vídeos e registros internos” da ocupação, sem esclarecer como foram obtidos.

Democracia em xeque

A denúncia expõe um paradoxo: enquanto o governo diz apostar no diálogo com povos indígenas e comunidades tradicionais, recorre a práticas de vigilância dignas de regimes de exceção. O uso de uma estrutura ligada a Direitos Humanos para vigiar quem protesta em defesa de direitos básicos, como educação e representação política, evidencia a contradição.

Para juristas e organizações indígenas, o caso não é apenas um problema de segurança pública, mas sim de democracia. Ao invés de abrir canais de negociação efetivos, o Estado teria optado por mapear lideranças, infiltrar agentes e criar relatórios que classificam reivindicações sociais como risco político.

Nota pública

O Instituto Universidade Popular, entidade executora do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos no Pará desde 6 de junho de 2024, considera as denúncias “gravíssimas, pois atentam contra a segurança e a integridade de defensoras de direitos humanos, além de fragilizar a própria política pública de proteção”. Segundo a nota, “o uso indevido das informações do programa violenta os defensores e a equipe técnica do programa”. A nota destaca que “repasses indevidos de informações não foram feitos, em nenhum momento, pela equipe do programa" e reafirma “a necessidade urgente de apuração de eventuais condutas ilícitas de agentes públicos”.


Papo Reto

A entrega das obras e a ocupação da Feira de São Brás, que funciona anexa ao Mercado, na terça-feira, 19, acabou criando uma confusão. 

•O perfil no Instagram COP30 no Brasil publicou se tratar da inauguração do prédio do mercado e alguns sites acataram a informação. 

Foi tanta desinformação que o ex-prefeito de Belém Edmilson Rodrigues (foto) fez postagem no perfil dele dizendo que entregou a obra no ano passado, e que a inauguração da feira por Igor Normando teria sido fake. 

•Um por um, os 240 vigilantes da empresa Belém-Rio que estavam de aviso prévio estão sendo reintegrados pela Cosanpa, a companhia de saneamento, que tem parte dos serviços sob nova direção.

Conforme a coluna antecipou, o aviso prévio no atacado assinado pelos vigilantes é a nova forma que os empresários têm para forçar o pagamento de serviços em atraso. E como funciona. 

•A concessão de pouco mais de 520 quilômetros da PA-150 segue gerando reclamações. A maior prova está no Tribunal de Contas do Estado, onde pipocam denúncias da parte de quem paga gato por lebre.

A Justiça Federal determinou que governo religue radares em rodovias federais, desligados por culpa dum "ligeiro" corte de R$ 321 milhões - cerca de 80% - na verba que o Dnit tinha para manter o serviço.

•De onde virá o dinheiro para cumprir a decisão judicial, só Deus sabe...

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