spionar opositores é a forma com que os setores de Inteligência dos governos operam. Os agentes são pagos para isso - e não se pode imaginar que o SNI, no Brasil de democracia plena, a CIA, nos Estados Unidos, ou o Mossad, em Israel, trabalham nesse campo “lendo jornais”.
Nesta semana, o chefe da Inteligência do governo do Pará, Carlos André Ciana (vídeo) fez do Estado protagonista de denúncia do repórter Adriano Wilkson no episódio sobre a invasão do prédio da Secretaria de Educação, no início do ano - o mesmo caso no qual foi acusado de fake news pelo Ministério Público Federal. Ao próprio site que publicou a informação do jornalista, o governo do Pará se pronunciou sobre o caso.
Segundo a denúncia, o Serviço de Inteligência do Estado teria usado o programa de direitos humanos, destinado a defender minorias, para espionar lideranças indígenas e professores envolvidos na invasão da Secretaria de Educação a partir da infiltração de agentes secretos e monitoramento político: o cacique Dadá Borari, da Terra Indígena Maró; Alessandra Korap, da etnia Munduruku, no Médio Tapajós; e Auricélia Arapium, do Baixo Tapajós; além da ex-vereadora e presidente do Sintepp, Silvia Letícia e o professor Beto Andrade.
A invasão da Seduc expôs feridas profundas que sangram até hoje no governo do Estado, culminando com a denúncia de fake news contra as comunidades indígenas pelo MPF. Naquela ocasião, as notas supostamente falsas divulgadas pelo governo - e publicadas com exclusividade pela Coluna Olavo Dutra - davam conta de que o projeto de educação aprovado pela Assembleia Legislativa não mexeria nos direitos indígenas, que estavam negociando com o governo havia meses.
Um movimento contrário, porém, capitaneado pelo Psol, mobilizou uma das regionais indígenas, do oeste do Pará, dada como uma das principais responsáveis pela invasão. Agora, a revelação feita pelo repórter investigativo Adriano Wilkson acende o alerta sobre os limites da atuação do governo do Pará e abre nova ação do MPF para aprofundar o caso.
Segundo a denúncia, a área de inteligência do governo Helder Barbalho teria utilizado um programa originalmente vinculado à Secretaria de Direitos Humanos para espionar e infiltrar agentes secretos em manifestações indígenas e sindicais, a partir do dia 14 de janeiro deste ano, contra medidas da Secretaria de Educação.
Dossiês secretos
Dois relatórios oficiais da própria Inteligência estadual confirmam que o Estado não apenas acompanhou de perto a ocupação da Seduc, mas produziu dossiês detalhados com nomes, etnias e até registros fotográficos e de redes sociais das lideranças envolvidas. Entre os alvos listados estão figuras conhecidas no movimento indígena e professores ligados ao Psol.
A produção desses documentos mostra que o governo classificou o ato como “manifestação político-sindical” e tratou a mobilização como ameaça de segurança, destacando inclusive que os indígenas teriam recebido “porretes de apoiadores externos” e que vídeos indicavam “preparação para confronto”.
Cárcere privado
O relatório nº 016/2025 da Secretaria de Segurança Pública do Pará vai além: descreve estratégias internas do movimento - como a decisão de manter indígenas dentro do prédio e professores no lado de fora - e acusa o Conselho Indígena Tapajós Arapiuns de manter um servidor do Ministério dos Povos Indígenas em “cárcere privado”, informação sensível e que, segundo especialistas, deveria ser apurada por vias legais, não por vigilância paralela.
O documento também inclui dados de natureza política e partidária, registrando a presença de vereadores do Psol, citando nomes de dirigentes sindicais e até listando uma suposta “chave PIX para doações” publicada em rede social, algo que se aproxima mais de monitoramento financeiro e político do que de segurança pública.
Política e infiltração
Os relatórios revelam ainda que a Inteligência do Pará passou a rastrear apoios logísticos ao movimento, como a entrega de água e colchonetes pela ex-governadora Ana Júlia Carepa, além da presença de quilombolas e professores do Sintepp. O texto deixa implícita a infiltração de agentes ao citar “vídeos e registros internos” da ocupação, sem esclarecer como foram obtidos.
Democracia em xeque
A denúncia expõe um paradoxo: enquanto o governo diz apostar no diálogo com povos indígenas e comunidades tradicionais, recorre a práticas de vigilância dignas de regimes de exceção. O uso de uma estrutura ligada a Direitos Humanos para vigiar quem protesta em defesa de direitos básicos, como educação e representação política, evidencia a contradição.
Para juristas e organizações indígenas, o caso não é apenas um problema de segurança pública, mas sim de democracia. Ao invés de abrir canais de negociação efetivos, o Estado teria optado por mapear lideranças, infiltrar agentes e criar relatórios que classificam reivindicações sociais como risco político.
Nota pública
O Instituto Universidade Popular, entidade executora do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos no Pará desde 6 de junho de 2024, considera as denúncias “gravíssimas, pois atentam contra a segurança e a integridade de defensoras de direitos humanos, além de fragilizar a própria política pública de proteção”. Segundo a nota, “o uso indevido das informações do programa violenta os defensores e a equipe técnica do programa”. A nota destaca que “repasses indevidos de informações não foram feitos, em nenhum momento, pela equipe do programa" e reafirma “a necessidade urgente de apuração de eventuais condutas ilícitas de agentes públicos”.
Papo Reto
•A entrega das obras e a ocupação da Feira de São Brás, que funciona anexa ao Mercado, na terça-feira, 19, acabou criando uma confusão.
•O perfil no Instagram COP30 no Brasil publicou se tratar da inauguração do prédio do mercado e alguns sites acataram a informação.
•Foi tanta desinformação que o ex-prefeito de Belém Edmilson Rodrigues (foto) fez postagem no perfil dele dizendo que entregou a obra no ano passado, e que a inauguração da feira por Igor Normando teria sido fake.
•Um por um, os 240 vigilantes da empresa Belém-Rio que estavam de aviso prévio estão sendo reintegrados pela Cosanpa, a companhia de saneamento, que tem parte dos serviços sob nova direção.
•Conforme a coluna antecipou, o aviso prévio no atacado assinado pelos vigilantes é a nova forma que os empresários têm para forçar o pagamento de serviços em atraso. E como funciona.
•A concessão de pouco mais de 520 quilômetros da PA-150 segue gerando reclamações. A maior prova está no Tribunal de Contas do Estado, onde pipocam denúncias da parte de quem paga gato por lebre.
•A Justiça Federal determinou que governo religue radares em rodovias federais, desligados por culpa dum "ligeiro" corte de R$ 321 milhões - cerca de 80% - na verba que o Dnit tinha para manter o serviço.
•De onde virá o dinheiro para cumprir a decisão judicial, só Deus sabe...