Empresa com aspecto de fachada e sem capacidade técnica em vigilância armada formou o Consórcio Pará + e venceu a licitação.
m pregão eletrônico da Prefeitura de Ananindeua, mês passado, para contratação de empresa especializada na prestação de serviços de vigilância patrimonial ostensiva armada aponta indícios de favorecimento ao Consórcio Pará +, formado por duas empresas, a Sírius Segurança Ltda. e a Elite Serviços de Segurança Ltda.

Entre outros indícios de suposto direcionamento está o fato de o certame não respeitar o princípio da publicidade e da concorrência, tirando a possibilidade de participação de concorrentes. Se esse fato por si só parece grave, por ferir os princípios da administração pública, torna-se no mínimo imoral diante da revelação da motivação: é que favorecer o Consórcio Pará + significa favorecer diretamente a empresa Kapa Capital Facilities Ltda. com um contrato de quase R$ 90 milhões dos cofres de Ananindeua.
Embora a Kapa Capital não apareça
formalmente no Consórcio Pará +, a ligação entre as duas empresas é um dos seus
sócios - ninguém menos que Octavio Augusto da Fonseca Pacheco, o poderoso sócio
majoritário da Kapa Capital (foto no detalhe), a mesma empresa
acusada em uma ação do Ministério Público Eleitoral como compradora de votos
para o atual senador Beto Faro (PT), e ainda em ação trabalhista do Ministério
Público do Trabalho (MPT) por assédio eleitoral entre os funcionários, sendo
que nessa instância a empresa, para se livrar do pagamento de multa e demais
sanções, firmou em abril deste ano um Termo de Ajuste de Conduta com o MPT, com
um acordo de R$ 300 mil.
O outro sócio da Sírius, Leonardo
Guimarães Fontenele, é um advogado, inclusive tendo atuado como tal em
campanhas eleitorais do MDB antes das eleições e durante as eleições para o
governo do Estado, em 2018. Aliás, Leonardo também é sócio da empresa Norte
Turismo Ltda., que possui vários contratos com órgãos do governo estadual.
Integrante do consórcio vencedor, a
empresa Sírius Segurança Ltda. não possui a qualificação técnica exigida para a
execução do objeto licitado no Pregão Eletrônico 09/2023.027 da Prefeitura de
Ananindeua. Nos últimos 12 meses, por exemplo, não há registro de nenhum
contrato da empresa com o poder público em âmbito federal, estadual ou
municipal. A Sírius sequer tem 18 funcionários em seu quadro funcional. Aliás,
a alteração do quadro societário da empresa data de junho deste ano.
A solução para a falta de experiência
da Sírius na atividade de segurança patrimonial foi unir-se a outra empresa do
ramo de vigilância, a Elite Serviços de Segurança Ltda., para formar o
Consórcio Pará +, a fim de obter a credencial para ser declarada vencedora da
licitação com valor total estimado em R$ 117.971.668,44, sendo que as
informações do Portal de Compras Públicas apontam que só o consórcio poderá
receber pelos serviços até R$ 89.751.106,20.
O problema é que a Elite Serviços de
Segurança também não possui capacidade econômico-financeira para gerir um
contrato deste porte com o município de Ananindeua, pois recentemente ajuizou
pedido de recuperação judicial na Vara de Falências do Tribunal de Justiça do
Pará, com processo sob nº 0875848-60.2023.814.0301 - 12ª Vara Cível de
Recuperação Judicial da Comarca de Belém.
A empresa também aparece com mais de
R$ 1,5 milhão em dívidas perante a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional
(Dívida Ativa da União) e com Certidão de Débito Positiva Trabalhista perante o
Ministério do Trabalho. Mas, a tudo isso, a Comissão de Licitação de Ananindeua
fez que não viu ou, como se diz, fez vista grossa para os graves problemas do
consórcio vencedor da licitação.
O mais curioso é que a licitação,
levada a cabo pela Secretaria de Administração em 6 de setembro passado, teve
somente dois participantes, além do Consórcio Pará +, o vencedor. Fonte
jurídica da coluna afirma que tal situação é estranha demais, pois uma
licitação com valores altos como essa, e de prestação de serviços
especializados na área de segurança, geralmente é composta por dezenas de
empresas que atuam no ramo de vigilância.
A explicação, segundo uma das poucas
empresas que participou e - por óbvio, acabou desclassificada -, foi a forma
como o processo foi feito. Segundo a empresa Belém-Rio Segurança Ltda, que
chegou a entrar com uma representação junto ao TCM contra a Prefeitura de
Ananindeua e também contra Lucas Martins Batistela, pregoeiro do município,
pedindo adoção de medida cautelar de cancelamento do pregão eletrônico SRP nº
09/2023, o certame teria sido realizado com claro direcionamento, ferindo a
artigo § 3º da Lei 8.666/93, a Lei de licitações.
Segundo a petição da Belém-Rio, a
publicação do edital no Portal Compras Governamentais (Comprasnet) e no Portal
de Compras Públicas foram ambas com data de abertura para o mesmo dia e horário
- dia 06/09/2023, às 10 horas -, tornando inviável a ampla concorrência, tudo
isso para favorecimento de quem supostamente já sabia que venceria, neste caso,
o Consórcio Pará +.
Além disso, para viabilizar e
facilitar que o Consórcio Pará+ fosse favorecido, o edital, originariamente
publicado no portal gratuito do governo federal, foi alterado de forma
“sorrateira”, considerando que o respectivo pregão foi revogado sem que tivesse
sido dado publicidade aos entes que estavam na expectativa de participar do
certame.
Ao mesmo tempo da revogação, a
prefeitura, através do seu pregoeiro Lucas Martins Batistela, abriu um novo
pregão envolvendo o mesmo objeto do pregão anterior, só que desta vez no Portal
de Compras Públicas, na verdade um portal de iniciativa privada, com objetivo
de eliminar a concorrência do pregão eletrônico SRP nº 09/2023.027, revogando
de forma repentina o certame que já havia sido publicado no portal gratuito do
governo federal.
Jornalista, natural de Belterra, oeste do Pará, com 48 anos de profissão e passagens pelos jornais A Província do Pará, Diário do Pará e O Liberal.
Comentários
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